História do ensino de línguas – Aula de 06 de março

[Aula baseada no primeiro capítulo do Richards & Rodgers. Clique aqui para baixar o arquivo].

I Tendências no ensino de línguas no século XX

O ensino de línguas surge no século XX, com influência da linguística e da psicologia. Houve, durante esse tempo, muitas mudanças e inovações propostas. Todas as propostas se baseavam num conjunto sistemático de práticas de ensino baseadas numa teoria específica de língua e de aprendizado de língua. A esse conjunto de práticas pedagógicas teoricamente embasado dá-se o nome de método.

Os movimentos do fim do século XIX e início do século XX, baseados em métodos de ensino fundados na gramática, levaram ao primeiro paradigma no ensino de línguas moderno: a abordagem estrutural.

1 Uma breve história do ensino de línguas

As mudanças no ensino de língua acontecem em função dos objetivos que levam ao estudo da língua, refletem as alterações propostas nas teorias sobre a natureza da língua e sobre o aprendizado de línguas.

O fato de o inglês ser a língua estrangeira mais estudada hoje, quando há 500 anos era o Latim, indica que os movimentos históricos, políticos e econômicos também determinam essas mudanças. No século XVI, as línguas estrangeiras modernas passaram a ganhar terreno e relegar o Latim a um lugar de língua clássica, perdendo importância como língua estrangeira estudada.

O declínio do Latim, no entanto, deixou de herança o modelo de seu ensino para a utilização com as línguas modernas durante os séculos XVII, XVIII e XIX. Esse modelo era baseado no estudo de regras gramaticais abstratas, listas de vocabulário e tradução. Falhas no aprendizado, também, resultavam em castigos severos, muitos até físicos. A oralidade era ignorada e o que era estudado não tinha relação alguma com a linguagem da comunicação real. No século XIX, essa abordagem já tinha se consolidado e se tornado padrão. Ela ficou conhecida como Grammar-Translation Method.

O método Grammar-Translation

O método Grammar-Translation surgiu na Alemanha. Seus críticos afirmavam que ele consistia em saber tudo sobre algo, menos o algo em si. Também conhecido como Método Prussiano, tinha as principais características:

1. A língua é estudada por meio da análise gramatical, tradução e memorização para ler sua literatura, sendo a língua materna a base do estudo;
2. Foco em ler e escrever;
3. Vocabulário estudado por meio de listas bilingues, estudo do dicionário e memorização;
4. A frase é a base do trabalho de estudo da língua;
5. A perfeição (accuracy) é enfatizada;
6. A gramática é ensinada de forma dedutiva;
7. A língua materna do aluno é utilizada como meio de instrução.

O método Grammar-Translation dominou o ensino de línguas por cerca de 100 anos (1840-1940). É criticado pelos linguístas por ser um método sem teoria. Como todo movimento, com o tempo desgastou-se, enfrentou críticas e movimentos contrários. Um deles ficou conhecido como o Movimento Reformista (Reform Movement).

As inovações no ensino de línguas no século XIX

Muitos fatos contribuíram para o enfraquecimento do método Grammar-Translation. Entre eles, as crescentes demandas por comunicação entre os países na Europa, que criou uma demanda também para o ensino da comunicação oral. Foram várias as propostas que surgiram, ainda que elas não tenham tido grande impacto. Na França, Claude Marcel propôs um método baseado no aprendizado de língua pela criança e enfatizando a leitura. Ainda na França, François Gouin apresentou uma proposta em que a língua era apresentada em situações contextualizadas, utilizando técnicas metodológicas que mais tarde foram incorporadas no Situational Language Teaching. Na Inglaterra, Thomas Prendergast, também observando crianças, propôs um método em que fossem ensinadas primeiramente as estruturas mais usadas.

Apesar das propostas apresentadas serem de valor histórico, pouca atenção foi dada a elas. A partir de 1880, no entanto, vários acadêmicos começaram a propor metodologias baseadas na linguística. Entre eles, Wilhelm Viëter na Alemanha, Paul Passy na França e Henry Sweet, considerado o pai da linguística aplicada, na Inglaterra. Eles criaram a International Phonetic Association (IPA), que pregava:

1. O estudo da linguagem oral;
2. O exercício fonético a fim de estabelecer bons hábitos de pronúncia;
3. O uso de textos e diálogos como a base de trabalho;
4. O ensino indutivo da gramática;
5. O ensino de novos significados sem recorrer à língua materna do aluno.

Henry Sweet argumentava que para que um método funcionasse ele deveria ser embasado na linguística e na psicologia. Segundo ele, alguns princípios precisavam ser observados:

1. Seleção cuidadosa de conteúdo;
2. Recorte do conteúdo, impondo limites;
3. Organização do conteúdo em termos das quatro habilidades de ouvir, falar, ler e escrever;
4. Organização do material do simples ao complexo.

Em suma, os reformistas acreditavam que:

1. A língua falada tem primazia para o ensino;
2. A fonética precisa ser integrada ao processo;
3. Os alunos devem ouvir a língua antes de ler a língua;
4. As palavras devem ser ensinadas em frases e as frases em um contexto;
5. A gramática deve ser trabalhada somente depois de usada no contexto pelo aluno;
6. A tradução deve ser evitada.

Esses princípios forneceram a base para o surgimento da linguística aplicada. Paralelamente ao movimento reformista, houve uma tendência crescente a se trabalhar no ensino de língua princípios naturalistas, que acreditam que uma segunda língua deve ser ensinada com base no aprendizado da primeira, que é natural a qualquer ser humano.

O Método Direto

Na história do ensino de línguas estrangeiras, muitas foram as tentativas de aproximar o ensino da língua 2 dos princípios da língua 1. No século XIX, Lambert Sauveur propôs um método, que utilizou em sua escola de língua em Boston, com esses pressupostos que ficou conhecido como Natural Method. Para ele, uma língua estrangeira poderia ser ensinada sem a necessidade de se recorrer à língua materna do aluno e os significados a serem ensinados deveriam, portanto, ser demonstrados e não traduzidos.

Esses pressupostos deram origem ao que viria ser mais tarde o Método Direto, o mais conhecido dos métodos naturais. Esse método foi apresentado nos EUA pelo já citado Sauveur e por Maximilian Berlitz, que o popularizou por meio de sua rede de idiomas. O Método Direto apresenta as seguintes características:

1. Aula conduzida na língua alvo;
2. O ensino do vocabulário cotidiano;
3. Habilidades orais ensinadas num crescendo de complexidade;
4. Gramática ensinada de forma indutiva;
5. Apresentação de itens feitas de forma oral;
6. Conceitos e vocabulário ensinados por meio de demonstração, sem tradução;
7. Ênfase em speaking e listening;
8. Gramática e pronúncia corretas enfatizadas.

O Método Direto teve dificuldade de se estabelecer em escolas públicas pelas seguintes razões:

1. Ressentia-se de base teórica na linguística aplicada;
2. Requeria professores nativos ou com alta proficiência na língua;
3. Era altamente dependente do professor;
4. Foi acusado de contraproducente, porque muitas vezes gastava-se um tempo enorme para explicar o que uma simples tradução daria conta.

Por volta de 1920, o Método Direto já havia perdido força. Em 1923, um estudo realizado nos EUA, chamado Coleman Report, enfatizava que a melhor opção para o ensino de línguas estrangeiras era a que dava ênfase à leitura, feita de forma estruturada e por meio de pequenos textos. E foi essa abordagem que dominou o ensino de línguas estrangeiras nos EUA até a Segunda Guerra.

Na Europa, Henry Sweet e outros lingüistas aplicados desenvolveram alguns princípios metodológicos, sistematizando, entre 1930 e 40, as idéias dos reformistas. Esses princípios deram origem ao Audiolingualism, nos Estados Unidos, e ao Situation Language Teaching, na Inglaterra. Para Sweet, um método teria de responder as seguintes perguntas:

1. Qual é o objetivo do ensino da língua?
2. Qual é o conceito de linguagem que se tem?
3. Quais os princípios para a seleção do conteúdo a ser trabalhado?
4. Que princípios de organização, ordenamento e apresentação são os melhores para atingir os objetivos?
5. Qual é o papel da língua materna no processo?
6. Quais os processos que o aprendiz usa ao aprender uma língua e como eles podem ser incorporados no processo?
7. Que técnicas de ensino funcionam melhor e sob que circunstância?

Assim, o Método Direto pode ser considerado o primeiro método de ensino de língua estrangeira, inaugurando a chamada Era dos Métodos.

A era dos métodos

O século XX foi marcado por uma grande discussão sobre as questões acima, rendendo uma grande variedade de abordagens e métodos. Essa discussão levou a três certezas:

1. Uma abordagem ou método se refere ao conjunto de procedimentos teoricamente consistentes que definem a melhor prática de ensino-aprendizagem;
2. Métodos e abordagens específicos são mais eficazes do que formas alternativas de ensinar;
3. A qualidade do ensino de línguas tende as melhorar se os professores fizerem uso das melhores abordagens disponíveis.

O período de 1950 a 1980 foi extremamente profícuo no aparecimento de métodos e abordagens. As décadas de 1950 e 1960 foram dominadas pelo Audiolingualism e pelo Situation Language Teaching, que perderam espaço em seguida para a Abordagem Comunicativa. Nas décadas de 1970 e 1980, muitos métodos alternativos surgiram, como o Silent Way, a Natural Approach e o Total Physical Response. Na década de 1990, surgiram o Content-based Instruction, Competency-Based Instruction e o Task-Based Learning. Houve ainda a emergência na área do ensino de língua de abordagens surgidas para a educação em geral, como o Cooperative Learning, a Whole Language Approach e a teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner.

Na década de 1990, no entanto, muitos lingüistas aplicados começaram a concluir que nenhum método ou abordagem dá conta de todos os problemas do ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira. É exatamente aí que começa o que se denomina da Era Pós-Métodos.

Abordagens e métodos na formação de professores

Um ponto pacífico na questão dos métodos e abordagens é a sua importância na formação de professores, pelas seguintes razões:

1. O estudo das abordagens e métodos fornece aos professores uma visão de como o campo do ensino de línguas evoluiu;
2. Abordagens e métodos podem ser estudados não como receitas fixas de como ensinar, mas como uma fonte de práticas consolidadas que os professores podem usar e adaptar para ir ao encontro de suas necessidades;
3. A experiência com várias abordagens de ensino pode auxiliar o professor no crescimento profissional no decorrer de sua experiência de ensino.

Para se conhecer as abordagens e métodos a fim de utilizá-los da forma proposta, no entanto, faz-se necessário definir mais sistematicamente o que é método e o que é abordagem, bem como definir um modelo de comparação entre eles, o que será feito na próxima aula.

***

Quem estava lá: Adrienne, Ana Luiza, Andrea, Anne, Bruna (estreando na aula), Edison, Gisele, Igor, Izabela (estreando também) , Joyce, Ketuly, Laila, Livia, Lucia, Rhadyja (também debutando na aula), Shanay, Stefanie (com uma camisa fashion do Flamengo) e Suelem.

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~ por Sérgio Freire em março 6, 2009.

13 Respostas to “História do ensino de línguas – Aula de 06 de março”

  1. Eita, féssor…
    Ficou muuuuuuuuito grande esse resumo…
    Eram aquelas folhas na sua mão?
    A propósito… não ficou muito claro pra mim se aquela era a primeira vez em que se falava de fato em “four skills”… (página 10, quase no início da página, nº 3 “arranging what is to be taught in terms of the four skills”.
    Já se havia falado nisso antes do Sweet?

  2. É um resumo de 18 páginas originais. Os resumos das próximas aulas tendem a ser menores. Quanto às quatro habilidades, provavelmente já se tinha falado nisso antes. No entanto, parece que foi o povo da linguística quem primeiro começou a sistematizar essa nomenclatura e estabelecê-la como carne de vaca no ensino de línguas estrangeiras.

  3. Nussa… O resumo ficou grande mesmo!!!

  4. Para os estressados com o resumão:

    “Antes do séc. XX valia o Grammar-Translation, baseado na gramática e traduação, claro, herança do ensino de Latim. Depois, veio a reação com a proposta do Método Direto, baseado na oralidade, na língua alvo e na gramática indutiva. Da década de 1920 à de 1940, o que imperou foi o estudo de línguas estrangeiras baseado na leitura, devido, entre outras coisas, ao relatório Coleman, que apontava a leitura como a melhor opção. Chegou a 2a Guerra, precisou-se trabalhar com a oralidade. Vieram o Audiolinguismo e o Ensino de Línguas Situacional. Nas décadas de 70 e 80 foram vários os métodos e abordagens propostos. O mais usado deles tem sido a Abordagem Comunicativa. Hoje estamos na era pós-método, o que quer dizer que nenhum método dá conta de tudo sempre, sendo necessário verificar a realidade para ver qual melhor se adequa aos objetivos dos alunos. Para analisar cada uma das abordagens é preciso conhecer o modelo de descrição. Veremos na aula seguinte”. Pode ser assim também: Grammar-Translation (Antes do Séc. XX) > Direct Method (Séc XX) > Leitura (Até a 2a Guerra)> Audiolinguismo e Ensino Situacional (1945-1960) > Boom de métodos (1970-1980) > Era Pós-método (1990-…) Melhorou? :)

  5. Beeeeeeeeem melhor! =)

  6. Eeeeehhhh!!!!!
    ; )

  7. Não achei o resumo tão grande, mas o resumão foi mais q objetivo. Obrigado professor. ;D

  8. Resumo nem tá tão grande.. ;p
    mas o resumão.. foi mais objetivo.
    Obrigado, professor. (Y)

  9. Caro Professor !
    Sua resposta esclareceu muito minhas duvidas espero que possa continuar conversando com vc ,
    faço o ultimo ano de letras por/ing aqui no parana agradeço se obtiver contato
    Grato !

  10. Adorei os artigos.
    Abracos !

  11. Por favor, gostaria de saber se o metodo audiolingual pode ser comparado a algum outro metodo. Se ha alguma equivalencia.
    Obrigada
    Sandra

  12. eu achei otimo

  13. estou no ultimo periodo de letras ,faço na unipinhal/sp ,gostei muito do texto ,me ajudou muito ,estou fazendo um trabalho.obrigado

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